quinta-feira, 2 de julho de 2009

Ateliê Urbano


Esse post já é considerado por mim como um dos mais importantes, pois marca a primeira entrevista para o blog.
É incrível como tem tantas coisas interessantes pelo mundo lá fora que muitas vezes não percebemos. Por um bom tempo eu passava por um pequeno espaço com várias pinturas ótimas, localizado em frente à estação de trem do meu bairro e ficava me perguntando o que seria aquilo. Um dia veio aquela voz em minha cabeça, dizendo "vá lá e descubra". Eu fui... e descobri.

Vindo do Maranhão em 1982 com apenas 13 anos de idade, Chico Conceição se formou em Artes Cênicas em 1998 e montou um grupo teatral no bairro de Santa Tereza. Há 4 anos criou o local em Bangu. Na verdade o espaço tinha a intenção de buscar lugares para palestras e reuniões sobre teatro.

Chico - O pessoal do teatro é muito preguiçoso. Ninguém queria sair de Santa Tereza para vir até aqui. Acabei ficando por Bangu mesmo. Mas a cultura é algo universal e todos abraçaram essa idéia, sem importar se eram do mundo teatral ou não.

Como o próprio Chico me disse, o espaço é realmente pequeno, mas incrivelmente grande ao atingir seus objetivos. Que ainda consiste na busca de locais, com a diferença de que dessa vez são de eventos, festivais e apresentações diversas.
Tudo começou bem devagar. Eram apenas comentários como "tem um lugar novo perto da estação, você já viu?". Mas a curiosidade foi aumentando, as pessoas foram se interessando e hoje são mais de 600 cadastrados. Lugar simples, sim, construído à base de palavras e imagens. Onde as palavras ficam por conta dos textos criados pelas próprias crianças, enquanto as imagens...



Esse é apenas um dos vários quadros expostos pelo lugar. Impossível não se encantar com o trabalho desse guerreiro (artista) que se autodenomina como quem "não sabe de nada e faz de tudo".

Chico - O teatro abrange todas as áreas. Você sem querer acaba se formando em tudo.

Anos atrás Chico poderia ser apenas um jovem vindo do Nordeste com um sonho na mente e a dificuldade na alfabetização. Mas ele se desafiou e encarou um vasto caminho que aparentemente seria nada mais que o tal sonho em sua mente: o caminho do incentivo à leitura e educação.

Chico - Foi por ser analfabeto que quis seguir esse caminho. Hoje estou em uma área totalmente oposta, cercado de livros e materiais culturais.

Seu filho, de apenas 10 anos, também passa pelo mesmo processo de incentivo.

Chico - Meu filho não sabe escrever e lê com dificuldade. Eu o ajudo a abrir os olhos e criar oportunidades para ele. O ensino no Brasil não é dos melhores e se afunda cada vez mais, então tento fazer a minha parte.

Mas não apenas as crianças são ajudadas por essa iniciativa. Adolescentes e adultos também visitam o espaço, procuram por CD's, livros e ficam por dentro da programação cultural na cidade. É um local bem leve e descontraído, com um rádio tocando suas músicas de MPB em um canto e os famosos quadros de sua autoria em outro. Tudo é uma riqueza de simples detalhes, passando pelo colorido da toalha de mesa e chegando às figuras montadas com isopor.
E foram esses pequenos detalhes que contribuiram para o sucesso do...

Chico - Eu não chamaria de sucesso. Apenas consegui atrair a atenção das pessoas e cumprir meu objetivo de incentivá-las a mergulhar em nossa cultura.

Naquele dia fui para casa com um sorriso no rosto. Feliz em saber que o país ainda pode contar com pessoas como Chico Conceição (assim mesmo, em destaque) que faz sua pequena e humilde parte, surtindo efeitos de uma grandeza incomparável.


"O bater das asas de um beija-flor pode criar um tornado do outro lado do mundo". E você, Chico, acaba de criar o seu. Parabéns!

Vejam mais alguns de seus quadros:





Por Leandro Freire

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