sábado, 6 de dezembro de 2008

Efeito Kuleshov 3 - A Vida Perfeita

É por volta das 8 da noite quando o casal de crianças brinca de jogo da memória com a mãe na sala. A porta se abre e por ela passa um homem belo e moreno, com uma roupa social e uma pasta na mão direita.
Na mesma hora as crianças gritam “papai” animadas, levantam-se e o abraçam na altura da cintura. A garotinha pega a mão direita de seu pai e o puxa para perto do jogo no chão.

- Nós estamos brincando de jogo da memória. E eu estou ganhando!
- Isso é muito bom, filha!

O homem acaricia os lisos cabelos da filha e olha para o garoto.

- E você? Está indo bem no jogo?
- Só a mamãe está em último.

Uma boa risada sai da mulher sentada no chão.

- Estou perdendo feio!

O homem dá um beijo em sua esposa e senta-se ao lado dela.

- Mas isso não vai ficar assim por que também vou jogar.
- Aaaaeeewww!!!

É geral a animação na casa. As crianças vibram e embaralham as peças enquanto o homem e sua mulher se olham, sorrindo.

- Pode começar, papai.

A garotinha diz, empolgada.
Depois de passarem um bom tempo brincando com os filhos, o homem e sua esposa encontram-se deitados em sua cama, um acariciando o outro. O homem parece estar bem feliz.

- Todos os dias eu agradeço a Deus por ter me dado essa vida.
- Eu faço o mesmo a cada minuto.
- Você não sabe o quanto é importante pra mim, Amanda.
- Eu sei, sim. Por isso sou tão feliz.

Eles se beijam e sorriem.

- Boa noite.
- Boa noite.

O homem se vira para o outro lado, mas ainda continua de olhos abertos, pensativo. Lágrimas escorrem repentinamente por seu rosto até que não consegue segurar o choro. Amanda o ouve e vira-se preocupada.

- O que houve, Mauro? Por que está chorando?
- Não quero que isso acabe.
- Do que está falando?
- Não sei. Estou tão feliz, tudo está indo tão bem que tenho medo de que um dia isso acabe.
- Não fale assim! Isso nunca vai acabar. Muito pelo contrário: só vai ficar melhor a cada dia. Você não pode...

Mauro não entende o silêncio e olha para Amanda, vendo que ela está desaparecendo aos poucos.

- Não! Não tirem isso de mim!

Tudo à sua volta também começa a desaparecer.

- Não façam isso comigo! Não!

E finalmente tudo some, dando lugar a uma espaçosa sala com apenas uma mesa de aço em seu centro. É nela que Mauro se encontra deitado, chorando ainda mais.

- Por que tiraram isso de mim? Não podem fazer isso!

Do lado de fora da sala, um grupo de homens bem-vestidos assistem ao que se passa lá dentro através de uma comprida janela. Um dos homens veste trajes militares e conversa com um jovem de óculos.

- A experiência foi um sucesso, general! O programa de realidade virtual funciona tão bem que a cobaia realmente interagiu com os personagens, expressando suas emoções de forma natural.
- Isso é ótimo!
- Com mais algumas pesquisas poderemos transformar esse programa em uma nova tecnologia militar. Seria fácil confundir e enganar inimigos dessa forma.
- Simplesmente genial! Então, continue com suas pesquisas.
- Sim, senhor.

O general afasta-se da janela e caminha por um corredor enquanto mais um militar se aproxima.

- Mandou me chamar, senhor?
- Sim. Pegue outro prisioneiro para servir de cobaia para nossos testes.
- Mas esse prisioneiro foi voluntário, senhor.
- Sei disso. Mas dessa vez pegue um na marra. Isso é uma ordem!
- Sim, senhor!

É noite e chove bastante quando o general estaciona seu carro em frente à sua linda casa.
Ele entra e bota suas chaves em uma mesinha no canto da sala.

- Estou em casa!

Sua esposa desce as escadas e o recebe com um beijo.

- Como foi o teste com a nova tecnologia?
- Você sabe que não posso te contar essas coisas. Nem deveria estar sabendo dos testes.
- E teria coragem de esconder algo de sua esposa?
- Não é bem assim que as coisas acontecem, querida.
- Sei disso. Estava apenas te testando.

Os dois riem e se beijam novamente até tudo ao redor começar a sumir lentamente.

- O... O que está havendo?

Sua esposa e o local desaparecem como em um passe de mágica e o general agora se encontra também em uma sala espaçosa e usando um macacão branco.

- O que fizeram comigo? O que fizeram comigo?

Do lado de fora, o sujeito é observado por homens do mais alto escalão, todos de terno e gravata. Um militar se aproxima de um deles.

- Deu tudo certo, Senhor Presidente.


Um homem pode criar as maiores mentiras, mas nunca percebe quando está em uma. Nós sempre buscamos a vida perfeita e nem imaginamos o preço que podemos pagar ao consegui-la.
O suposto general usava prisioneiros como cobaias, brinquedos de um projeto científico e não foi capaz de enxergar a hierarquia que se formara ali. Ele foi a cobaia durante todo o tempo, e cobaia de homens muito mais poderosos. Todo o poder que pensava ter em mãos nunca existiu de verdade.
Mauro poderia ser sim um homem feliz se tudo aquilo não fosse parte de algo muito maior, uma pegadinha mental de proporções gigantescas que culminou em um... Efeito Kuleshov.



***
Por Leandro Freire

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

É Outra Imagem


Kanye West é um cantor que sempre admirei e como todo cantor, possue sua época de mudança artística ou pessoal (pelo menos é o que eu acho). Ele é conhecido por suas músicas bem produzidas, sempre com um efeito a mais (coro ao fundo, vozes eletrônicas, piano, violino e outros detalhes).
Esse ano ele lançou um novo CD, entitulado "808s & Heartbreak", que pela primeira vez não teve o famoso ursinho na capa. Mas, infelizmente, essa não foi a única mudança: Kanye pareceu esquecer de todos os seus discos anteriores e simplesmente... Mudou. Fácil assim.
Nada de produções bacanas com vozes bacanas como em "Can't Tell Me Nothing", "Diamonds From Sierra Leone" ou "Trought The Wire". Há, sim, músicas legais no CD e "Say You Will" e "Love Lockdown" são bons exemplos. Mas fica aquela sensação de que está faltando alguma coisa.
Esse não é o Kanye que eu conheço, lembra um Chris Brown eletrônico e realmente seria se fosse mais animado. Todas as músicas, vejam bem, TODAS têm uma realidade triste e dolorosa, nada de muito energético como seus trabalhos anteriores. A gente acaba sentindo falta do estilo usado em "All Falls Down", "Heard 'Em Say" e entre outras canções maravilhosas que já fizeram parte da vida de West. Só espero que ele não passe a adotar esse novo estilo.
Já ouvi gente dizendo que esse é o seu melhor disco, mas eu sinceramente discordo. E é aí que entra o motivo da imagem que ilustra esse post: para mim o melhor CD foi "Graduation" (lançado em 2006), que nos apresentou as ótimas "Stronger", "Flashing Lights", "Good Life" e "Homecoming". Ele usou e abusou das técnicas de voz, dos belos refrões bem feitos e das batidas viciantes. Então essa é a imagem que vai representar essa crítica. Está certo que é meio estranho falar de um CD e mostrar outro, mas se Kanye resolveu exibir outra imagem eu também posso fazer isso.


Por Leandro Freire

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Supernova


Vocês lembram do post "Três Vidas (Im)Perfeitas"? É aquele onde falo do sucesso e do fracasso de três grandes astros: Michael Jackson, Britney Spears e Ronaldo.
Caso não lembrem, é só clicar aqui.

Fico feliz em anunciar que uma das estrelas se renovou e aos poucos recupera seu brilho da forma mais intensa do que nunca. A nossa estrela Britney Spears.
Não precisam descartar o que leram sobre ela, é até melhor que tudo seja destacado para verem o que a loirinha passou e conseguiu superar, deixou para trás.
Confesso que ficava imensamente triste com as notícias que não paravam de chegar sobre essa, que considero uma heroína. E a cada dia que passava, parecia que nada melhorava e eu já me perguntava o que diabos estava acontecendo e porque estava acontecendo.
Na segunda-feira (1 de dezembro) foi ao ar pelo canal Sony o documentário Britney: For The Record, onde ela pôs tudo em pratos limpos e falou sobre sua turbulenta época. Acho que o programa serviu como um colírio para fazer todos enxergarem o quanto ela é normal e quer apenas fazer o que gosta e viver sua vida.
Ok, ela errou também. Mas o erro faz parte do ser humano, isso é completamente normal e não podemos esquecer o quanto os fãs/imprensa/pessoas em geral erraram com ela. Em sua apresentação no VMA 2007 todos criticaram e falaram o quanto sua performance foi humilhante e tal (nem foi tanto assim). Alguém mencionou a coragem e fibra que ela teve ao subir no palco mesmo passando por aquele momento difícil, ao se apresentar para uma multidão mesmo sabendo que não poderia agradar (e infelizmente foi o que aconteceu)?
Por que apenas tentaram e ainda tentam ver o lado ruim das coisas? Tenho certeza que se alguém passasse metade do que ela passou não suportaria chegar onde agora ela chegou. Ela foi engatinhando de volta ao seu prestígio e merece reconhecimento por isso. O documentário nos mostrou o quanto ela ainda sofre com tudo isso, mas não deixa de seguir em frente com a cabeça lá em cima. Mostrou o quanto a vida dela é agitada e ao mesmo tempo uma chatice. Mostrou que ela não tem medo de dizer o que pensa e não liga para as opiniões alheias, ainda que desabafe sobre todas elas, o que qualquer um faria com esse enorme peso nas costas. Mostrou a pessoa maravilhosa que ela é, a pessoa que arranja espaço para o bom-humor mesmo sabendo que "as pessoas a ouvem, mas nunca escutam o que realmente quer dizer", sábias palavras da Britney. Mostrou o que ela veio tentando mostrar todo esse tempo: seu brilho jamais se apagou de verdade, apenas foi ofuscado pelas lentes das câmeras, pelas palavras impressas em pedaços de papel e pelas as que saíram das bocas da sociedade, que pintou sua imagem de vilã e a construiu de forma rebelde. Brtney Jean Spears já não é considerada por mim uma estrela, ela evoluiu (seu novo CD Circus é a prova disso) e se tornou a mais bela e exemplar supernova.


Por Leandro Freire