sábado, 29 de novembro de 2008

Efeito Kuleshov 2 - Estrada 17

O mapa mostra de forma detalhada as estradas, rodovias, linhas de ferro e entre outros itens existentes pela área. As delicadas mãos de uma bela mulher o afastam enquanto conversa com o homem ao seu lado, dirigindo o carro em que se encontram.

- Tenho certeza que já passamos por aqui!
- Não passamos! Você não confia em mim?
- Em você eu confio. É o mapa que não me
deixa segura.
- Eu sei que não estamos perdidos.
- Como pode ter tanta certeza?
- Há quanto tempo fazemos isso sem problema algum? E essa estrada é deserta, é tudo igual por aqui. Olhe ali!

Os últimos fios de luz do sol estão se escondendo e o carro passa por uma placa anunciando a “Estrada 17”.

- Viu? Estamos no caminho certo.
- Odeio quando está certo.
- Então não devia ter se casado comigo.
- O que quer dizer com isso?

O homem apenas sorri e pisca seu olho direito, ganhando um belo sorriso de sua mulher.

- Vamos comemorar!

Uma alta música de rock sai do rádio enquanto o homem dança sentado, ao mesmo tempo em que dirige.

- Desliga esse rádio, César! Vai acordar o Bruninho.

César olha para o banco de trás, onde repousa tranquilamente um garotinho loiro com seus olhinhos apertados e suas pequenas e brancas mãos sobre o pescoço.

- Desculpe, só quis animar a viagem.
- A sorte é que ele dorme como uma pedra.

Já é noite quando um homem jovem surge na lateral da estrada, pedindo carona com seu polegar levantado.

- Devemos parar?
- É claro, querida. Devemos sempre ajudar nossos semelhantes, não é?

César pára com o carro no canto da estrada e abre a porta traseira para que o homem entre. Estranho saber que um pai de família confia em alguém que acabara de ver em uma estrada e ainda o permite ficar no banco traseiro com seu filho ao lado.

- Muito obrigado por pararem!
- Qual o seu nome?
- Rogério.
- Muito prazer, Rogério. Essa aqui é a Helena e eu sou César.
- Apenas tome cuidado para não acordar o Bruninho.
- Sem problemas.

O estranho sujeito admira a criança por alguns segundos e depois volta a olhar para os dois da frente.

- Podem me deixar no Cemitério Camélia?

Helena olha para César como se também esperasse uma resposta.

- É claro.
- Obrigado.

O carro finalmente sai do lugar e segue seu caminho enquanto Helena está pensativa até que resolve falar.

- Desculpe perguntar, mas algum parente seu faleceu recentemente?

O estranho parece se incomodar um pouco com a pergunta, mas responde assim mesmo.

- Sim, uma tia minha estava viajando e depois nos ligaram falando que acharam o carro dela em um rio, mas o corpo está desaparecido. Nós fizemos um enterro simbólico.
- Onde ela estava?
- Na casa de uma amiga em Vassouras.

Helena está inquieta. Aquele homem não deveria estar no carro.
Ela olha para trás e vê o estranho observando o garoto dormindo. Por que olhar tanto para ele? Será que quer alguma coisa?
Ainda incomodada, Helena faz mais uma pergunta.

- Está há muito tempo pedindo carona?
- Sim, tive sorte de estarem passando por ali. Foi o primeiro carro que vi durante todo o tempo. Não sei por que a Estrada 17 é tão deserta.

O homem se ajeita no banco e Helena percebe que ele está armado, ficando paralisada de medo, sem nem ter condições para avisar ao seu marido.
Assustada, a mulher abre o porta-luvas e de lá tira papel e caneta. Ela escreve “ele está armado” e mostra disfarçadamente para César, que na mesma hora freia o carro bruscamente.

- O que houve? Por que paramos?

O estranho sujeito já bota a mão na arma.

- Nós sabemos que está armado.

César diz calmamente enquanto Helena olha para ele.
O homem nota que as mãos do garoto não estão mais sobre o pescoço e um grande corte está exposto, ficando desesperado.

- O que fizeram com...

Helena injeta algo no pescoço do homem, que cai inconsciente.
Escuridão total. Espaço apertado. Apenas o silêncio abafado de algo que parece ser o carro freando. O homem sente seu corpo imóvel, suas mãos e pernas estão amarradas e sua boca tapada com uma resistente fita crepe.
A escuridão some quando César abre o porta-malas do carro para pegar uma pá que está atrás do homem. Eles estão em um enorme terreno baldio com várias covas e César está cavando mais uma para botar o corpo do garoto.
O homem consegue ver mais um corpo no local.

- Hmmmm! Hmmmmmm!!!

E é o corpo de sua tia.

- Hmmmmmmm!!! Hmmmmmm!!!

Helena surge na sua frente.

- Não adianta gritar. Ninguém vai te ouvir. Quando falou da sua tia, lembramos da nossa passada em Vassouras naquele dia. Que coincidência, não é?

Ela se aproxima e sussurra em seu ouvido: deveria ter escondido melhor sua arma. Mas olhe pelo lado bom, agora você também vai ganhar um lugarzinho ao lado da tia.

- Hmmmmmmmmm!!!! Hmmmmm! Hmmmmmmmmmmm!!!



***
Nossos pais costumam dizer para não confiarmos em estranhos, mas aqui a regra virou do avesso. O estranho tornou-se a vítima. Vítima de seu próprio destino ao encontrar-se com as mesmas pessoas que haviam matado sua tia.
O que parecia um simples casal disposto a ajudar acabou se revelando como uma dupla de psicopatas que usa a imagem falsa de boas pessoas para atrair mais vítimas.
O estranho que pediu carona poderia ser muito bem o assassino, porém não neste caso onde tudo não passou de um... Efeito Kuleshov.


Por Leandro Freire

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Música Para os Olhos


Antes de iniciar oficialmente o post, quero deixar algo bem claro: eu odeio musicais. Mas não pensem que essa será uma crítica negativa. Não, longe disso. A carga dramática, surreal e ao mesmo tempo cultural nos envolve e surpreende.
Começando pelo brilhante e incrivelmente original roteiro de Julie Taymor: uma estória narrada (lê-se cantada) através de músicas dos Beatles.
Julie deu uma nova visão às canções. Chega a passar por nossas cabeças que os "Reis do Yê-yê-yê" já cantavam pensando no romântico conto dos jovens que se conhecem e se apaixonam no fim da década de 60, durante a Guerra do Vietnã.
A trama começa com o jovem Jude (Jim Sturgess) saindo de Liverpool e indo aos EUA para procurar seu pai. Lá ele conhece Lucy (Evan Rachel Wood) e os dois acabam se apaixonando. Tudo isso em meio ao clima de guerra, romance, protestos e psicodelia.
O filme conta com participações especiais, como Bono Vox e Salma Hayek, além de "brincar" com simbolismos representando artistas consagrados da época. Jimi Hendrix, Janis Joplin e os próprios Beatles aparecem indiretamente no filme, mas é possível sacar claramente as jogadas referenciais utilizadas.
Parece que tudo é uma bem elaborada peça teatral dividida em atos e cada ato possui suas músicas, tornando "Across The Universe" não só mais um filme musical, mas literalmente uma obra de arte.


Por Leandro Freire

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Humor é Coisa Séria - Parte 2


Primeiro post oficial no blog de cara nova! E para iniciar essa nova fase eu lhes apresento a segunda parte do "Humor é Coisa Séria". Dessa vez com algo das antigas: The Fresh Prince of Bel-Air (Um Maluco no Pedaço, como ficou conhecido aqui no Brasil).

A série surgiu em 1990 e foi até 1996, sendo exibida por aqui somente em 2000. Ela narra a história de um jovem rapaz que veio da periferia da Filadélfia para morar na casa dos tios em Bel-Air. É o típico adolescente pobre tentando se adaptar a um ambiente rico, mas tem como fatores de diferença o humor malandro criado por Will Smith (que interpreta um personagem de mesmo nome) e o lado emotivo de tudo (apesar dos engraçados acontecimentos, a família expressa seu carinho e amor diversas vezes).
Um dos ingredientes para o sucesso é a personalidade bem-humorada de Will e seu jeito excêntrico de ser, o que criou um contraste com seu primo Carlton Banks (interpretador por Alfonso Ribeiro), que era totalmente o oposto e mesmo assim conseguiu ser uma das coisas mais engraçadas da série. Mas com o passar do tempo, Carlton também foi mostrando seu lado mais louco e se tornou um show à parte (não podemos esquecer da sua famosa dancinha).
Outro destaque vai para o mordomo Geoffery (Joseph Marcell), que apesar de trabalhar para a família, muitas vezes era a voz da razão e não poupava palavras para muitas vezes zombar de seus patrões.
Com episódios e personagens variados e uma história bem contada através de muito humor e situações cômicas, já era de se esperar que o príncipe de Bel-Air faria muito sucesso.

Algumas frases da série:

Will - Jazz, lembra da mulher que estava comigo aqui?
Jazz - Putz! Tô tentando esquecer.

***

Will - "Entre jovem e saia um adulto"? Quanto tempo vou ficar aqui!?

***

Will - Ele não estava colando, acontece que ele sofre de... Esticadina Cérebro-Espinhal.


***

Carlton - O que o caramujo disse em cima da tartaruga?
Will - Eu não sei, Carlton.
Carlton - Weeeeeeeeeeeee!!! Ha ha ha ha ha!

E essa é a (comprida) abertura:


Por Leandro Freire

Caminhão da Mudança

Esse post é para informar que o blog está de mudança. É isso aí! Blog de cara nova!
A partir de hoje falarei sobre política e economia. Calma, é brincadeira! Tudo continuará como sempre foi, mas o visual realmente está diferente... se é que não perceberam.

Só mais uma coisa: agradecimentos ao meu amigo Márwio Câmara que criou o banner aí em cima. E o Márwio também tem blog: http://imprimirpalavras.blogspot.com/

O blog mudou, mas a vida continua. Então... "vâmo que vâmo" que o samba não pode parar!

Por Leandro Freire